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Sobre A Aprovação Da Eutanásia Em Portugal

Os Motivos Que Me Levam A Ser A Favor Da Eutanásia

20.02.20 | Vera Dias Pinheiro

aprovação da eutanásia em portugal

 

Em primeiro lugar, acho que é preciso reforçar que um direito não nos obriga a nada, mas ter direitos, por sua vez, protege-nos.

 

Confesso que não li muito acerca do fundamento de quem é contra a eutanásia, prefiro pensar que se trata apenas de não ter noção do que é realmente um estado terminal de vida e o que é ver alguém que nos é realmente próximo em processo de morte. Para uns é rápida e indolor, mas, para outros é demorada, sofrida e em estado de degradação física e mental continua e assustadora.  

 

E eu sei que todos nós concordamos que a morte é das poucas certezas que temos na vida, porém quando chega a hora de falar sobre ela e de a enfrentar, a maioria das pessoas foge! Entra em negação ou em recusa! E a discussão sobre a eutanásia, para mim, é a prova disso mesmo.

 

No entanto, a minha opinião é tão somente isso, a minha opinião! Mas como pessoa que sou a favor deste direito, a eutanásia, eu estou feliz com esta notícia. E após ter vivido de perto a evolução do cancro num doente terminal - nunca entrei em detalhes quanto à gravidade, mas era bastante grave - se eu já tinha uma opinião favorável, essa não mudou quando me deparei com o facto de que, de repente, a minha mãe era um desses doentes.

 

O meu amor incondicional por ela fez-me desejar, logo que soubemos qual seria o desfecho, que nunca chegasse ao tal estado que os médicos falavam e para o qual diziam ter que me preparar. Na minha cabeça ficava sempre a dúvida de qual seria esse tal “estado” ao qual a minha mãe chegaria. Que raio de evolução tão grave poderia acontecer, que transformação o cancro a levaria a enfrentar que exigia que eu tivesse que me preparar para ver uma mãe totalmente diferente no fim da doença?

 

E sabem? É mesmo inimaginável, a não ser que tenham a infelicidade de passar por isso. Contudo, o meu desejo profundo é que ninguém tenha que chegar até ao tal estado, que eu vi com os meus olhos. Por isso, falar de eutanásia faz todo o sentido quando somos transportados para esta realidade que fica, na maioria das vezes, guardada dentro de quem a vive.

 

Quando recebo uma videochamada e a minha irmã me pergunta se estou preparada para ver a minha mãe, a minha primeira reacção foi achar que ela só poderia estar doida. Que ideia a dela para me perguntar uma coisa dessas… O que mais poderia ter acontecido, em menos de 24 horas (o momento do meu último telefonema para a Unidade onde estava internada há menos de uma semana) para que a minha irmã estivesse naquela aflição?

 

Quando a câmara se vira, eu não encontrei mais a minha mãe. Vi alguém a morrer aos meus olhos e ninguém ia fazer nada, simplesmente íamos esperar, naquele estado de agonia e de aflição, que o fim chegasse. E quando é que chega? Há pessoas que ficam dias, semanas no tal estado, sabiam?

 

Todavia, no tal estado também já não existe amor à vida, nem tão pouco existe a pessoa que amamos. Existe apenas um corpo - que quero acreditar estar já vazio da sua alma - em luta, em conflito ou simplesmente em transição. Nesse momento, do nosso lado, há aflição, angústia e um sofrimento atroz que só acentua a dor da perda de quem amamos. Porque juntamente com a sua ausência, temos que lidar com todos os fantasmas e todos os “ses”: “e se ela sofreu” E “se ela percebeu que estava a morrer” e “se…” e “se…” e “se…”   

 

Ainda não havia eutanásia e ninguém ia fazer anda, mas Deus concedeu-lhe alguma dignidade no seu fim, aquela que já vinha a perder aos poucos, e foram poucas as horas que vivemos dentro daquele pesadelo.

 

A minha opinião é tão válida como qualquer outra, mas o meu amor pela minha mãe ou pelas pessoas que amo é, acima de tudo, querer que elas tenham dignidade em todos os momentos, mas, sobretudo, na doença e na doença oncológica, em particular. Se soubessem o quanto ainda existe por fazer por estes doentes e o quanto lhes falta para que vivam o seu fim com dignidade e alguma qualidade vida, a pouca vida que lhes resta… Se soubessem…

 

Por mais que se ame alguém e que queiramos muito ter essa pessoa na nossa vida, acreditem, pode haver um momento em que amar essa pessoa é deixá-la partir, porque só isso permitirá que descanse.  

 

Expliquei ao meu marido a minha vontade em deixar escrito os meus desejos caso venha a passar por uma situação de saúde com esta gravidade. Porém, agora já não precisa levar-me para nenhum outro lugar. Agora posso ficar no meu país, onde sei que a minha vontade será respeitada.

 

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