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O amor também cura | O remédio que não vem prescrito pelos médicos

02.08.19 | Vera Dias Pinheiro

o amor também cura

O amor não é uma ciência exacta e nem existem estudos científicos ou resultados estatísticos sobre o mesmo, porém eu acredito que o amor também cura. Acredito que melhora o bem-estar do doente, liberta a produção de endorfinas e, assim, a sua energia canaliza-se para as coisas boas - e o bom atrai “mais bom”.

 

Estou a horas de regressar a Bruxelas e, desta vez, vou com o meu coração apertado e com uma tristeza com a qual terei que aprender a lidar daqui para a frente. Terei sobretudo que aprender a transformá-la em outro tipo de sentimento, seja ele qual for. Contudo, se há coisa que o cancro tem de bom é o “abre olhos” para a noção do tempo. Sim, esse mesmo, o tempo que passamos a vida a desperdiçar como se fosse algo que recuperamos facilmente.

 

E eu decidi que quero aproveitar este tempo. Eu recuso-me a ser daquelas pessoas que chora e se lamenta “se tivesse feito isto ou aquilo” ou “se tivesse aproveitado mais ou feito mais aquilo”. Nada disso! Todos os dias contam, sejam semanas, meses ou anos. Mas neste momento, nada disso importa mais, não me importa mais quantos anos viverei. Importa-me saber como aproveitei o meu tempo.

A objectividade dos médicos é assustadora, contudo, se calhar, precisamos todos de levar um abanão de vez em quando. 

 

Portanto estes dias, que eu achava serem muito poucos, acabaram por ter permitido fazer coisas que antes pensava serem impossíveis. Vou triste, é verdade, mas vou de coração cheio por não ter desperdiçado um só segundo de cada dia. 

Ri, chorei, abracei, beijei, dei amor e recebi muito amor, rezei, senti-me forte e fraca ao mesmo tempo, dei a mão, dei o meu tempo para ouvir os desabafos, sentei-me, conversei sem pressa ou distracções, estive em silêncio com alguém e foi reconfortante, cresci e parto sentindo-me uma pessoa muito mais adulta. 

 

Contudo, acima de tudo, sei que consegui fazer alguém feliz, sei que dei um pouco de cura, aquela que não é prescrita pelos médicos, mas cujos efeitos secundários (e principais) são bem melhores do que os da radioterapia e da quimioterapia. O amor pode não vir numa receita médica, mas nestes dias senti que pode ajudar a curar e isso é tudo aquilo que me importa agora, porque desse medicamento eu tenho aos “montes” e movo montanhas para o fazer chegar a quem precisa.

 

Estes dias, intensos e dolorosos, em Portugal chegam ao fim com doses de amor redobradas, uma casa cheia de crianças e uma família que tem o coração no lugar certo unindo-se quando é preciso e que sabe pôr as diferenças para trás. Aliás, já nem fazem qualquer sentido... o amor de sangue tem esta vantagem acrescida.

 

Ontem fiz cerca de 300 km para ir buscar a minha família ao Algarve e outros 300 km para regressar - eles um dia mais cedo do que o previsto. Desta forma, é possível terminar as férias num lugar especial: a casa da avó, onde tudo é possível! 

 

Na casa da minha avó, chegavam a estar seis netos, eu era (e sou) a mais nova, sempre a tentar acompanhar os outros, até nos filmes de terror, o que, às vezes, não corria lá muito bem. Mas a casa dos meus avós era mágica, onde tudo acontecia e onde os nossos desejos eram satisfeitos. Às vezes, éramos chamados a atenção, mas a alegria nos olhos do “vô” e da avó denunciava o amor incondicional e cheio de mel pelos netos.

 

E foi esse amor que fui rebuscar agora, afinal, os tempos que se vivem requerem medidas mais agressivas. Juntei os quatro netos num autêntico acampamento em casa da avó, que diz que nunca se sentiu tão feliz. Improvisou-se um cinema, houve pipocas, confusão, deitar fora de horas e cada um deles tinham um brilho especial no olhar. Estava a ser um dia único e uma noite espectacular para todos.

 

Deixo-os mais à vontade e deixei-os aproveitar cada segundo do momento para que fique gravado na memória tal como eu fiz há muitos anos atrás. 

 

Este pode não ser o remédio que vai salvar quem precisa, mas não me lixem.... porque é o amor incondicional e puro que nos dá força e nos torna inabaláveis - e sim, já escrevi isto antes.

 

Se pudesse mudava tudo, tirava a doença ou faria com que a distância Portugal-Bélgica não existisse, mas existe e não posso afundar-me na dor e na tristeza que vou sentir sempre. Ainda assim, o controlo do presente é meu e eu escolhi transformar cada um destes dias num dia memorável durante os quais coisas incríveis podem acontecer e aconteceram. 

Vivam as memórias em casa dos avós!

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