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Em Tempos de Corona, A Importância De Agradecer Todos Os Dias.

20 Motivos De Gratidão Na Minha Vida!

27.03.20 | Vera Dias Pinheiro

gratidão em tempos de isolamento social corona virus

 

O dia de ontem foi particularmente difícil para mim. E, ao invés de partilhar, optei por guardar. Uma tentativa para não ceder ao pessimismo, à ansiedade e ao medo. Preferi guardar, contudo depois apercebi-me que ontem, tal como eu, muitas pessoas se sentiram em baixo e desanimadas. Talvez, ao fim de 14 ou 15 dias de quarentena forçada ou voluntária nos tenha caído a ficha e a certeza de que não sabemos até quanto durará o nosso confinamento. Talvez, também, o nível de stress em nossas casas esteja em níveis elevados, talvez se sinta uma pressão enorme que se aguduza com o facto de não termos para onde fugir ou esconder.

 

Apercebi-me pela primeira vez, da agitação nos meus filhos e da necessidade de não explodir, por exemplo, por terem partido um objecto de valor para mim por estarem a jogar a bola em casa, sabendo que não podem. Mas se eu não relativizar, o que será de nós daqui a alguns dias/semanas? É preciso munir-me de toda a calma que consigo para poder receber a saturação e a raiva do Vicente quando fica exausto e farto da obrigação de fazer os trabalhos da escola em casa. E a Laura que, com apenas quatro anos, precisa da atenção redobrada de todos para se manter entretida e manter a sua calma e serenidade. Não existe uma refeição tranquila em casa, existem muitos berros de cada um e dos dois ao mesmo tempo, precisam de espaço para libertar a energia, mas estão privados de algo tão importante para o seu desenvolvimento que são os estímulos da rua e do contacto com o ambiente externo. Eu própria que vou oscilando entre os dias em que só quero chorar e ter a minha mãe de volta, ter a tomada de consciência da perda de liberdade e da impotência face a uma realidade “lá fora” assustadora, a sobrecarga das tarefas domésticas e as prioridades do dia-a-dia que atiram o meu tempo e o meu trabalho bem lá para fundo da tabela. E já alguém falou da tensão que se instala com as coisas mais insignificantes como, por exemplo, o facto de ninguém ter tomado a iniciativa de pôr a mesa ou de adiantar o jantar? São tantas as coisas pequeninas que, por sua vez, se tendem a juntar a tantas outras. E, das duas, uma: ou ignoramos ou instala-se uma montanha que abre vazios e distanciamentos jamais imaginados.

 

Os tempos são de uma profunda transformação a todos os níveis da nossa vida. Começamos a olhar para nós e a colocar em causa como será o futuro! Estamos apreensivos e com medo. Medo pela nossa saúde e a dos outros; medo pela nossa estabilidade socio-económica; medo porque não existe nada de igual antes e, como tal, embora saibamos que algo de gigante e devastador virá é tudo bastante vago.

Contudo, todas as grandes transformações são assim: profundas, devastadoras, causam dor, provocam lágrimas e só aqueles que conseguirem confiar no processo e na natureza, só esses terão alguma paz.

 

Mas agora, mais do que nunca, os tempos são de reflexão e de gratidão. Os tempos exigem que este exercício seja feito diariamente que permitirá alivar a nossa ansiedade e a nossa angústia. Quando comecei a sentir o meu estado de espírito a ir a baixo, senti, ao mesmo tempo, a necessidade de me focar no bom e isso levou-me a escrever uma lista com as primeiras coisas que me vieram à cabeça e pelas quais sou grata.

  • 20 Motivos de Gratidão na minha vida:

 

  1. Agradeço ter conseguido despedir-me da minha mãe com um funeral que pode acolher todos aqueles que quiseram se despedir dela e que puderam partilhar aquele momento tão devastador nas nossas vidas sem qualquer inibição de proximidade social. Recebi abraços, beijinhos e tive de perto o calor de muitas pessoas que fazem parte da nossa vida desde que eu me conheço por gente. Obrigada!
  2. Agradeço por ter esta casa, confortável e espaçosa que muito contribuiu para que seja possível encontrar alguma tranquilidade nos nossos dias atípicos. E também por nunca nos ter faltado comida ou qualquer outro bem essencial.
  3. Agradeço por ter dois filhos cheios de energia e de saúde e por deixar-me contagiar por tudo aquilo que as crianças têm para ensinar aos adultos. Tenho dois filhos que são crianças, mas também companheiros de aventuras, de desabafos, de risos e de lágrimas.
  4. Agradeço as pessoas especiais que aparecem na minha vida e que ficam, sem arredar pé, mesmo quando eu me fecho na concha sem querer falar com ninguém. Obrigada a quem olha para mim e consegue ver a pessoa que eu sou, que fica e luta por mim. São poucas, mas não preciso de mais.
  5. Agradeço por ter sido uma filha presente na vida da minha mãe e na do meu pai e isso permitoiu-me presenciar a partida dos meus pilares, embora numa tristeza profunda, serena por termos vivido tudo o que esteve ao nosso alcance - na verdade, fazer mais do que fizemos, era praticamente impossível, mesmo que agora tudo pareça pouco devido à ausência.
  6. Agradeço o facto de ser uma pessoa que gosta de acordar cedo e, com isso, poder sentir o dia a nascer e receber a sua energia e fazer com que os dias parecem maiores. Nada me deixa mais feliz do que a sensação de um dia bem aproveitado.
  7. Agradeço o facto de conseguir olhar para os problemas de forma pragmática e sem antevisões ou sofrimentos antecipados dos problemas que ainda não reais.
  8. Agradeço o facto de conseguir cuidar de mim, ter amor próprio e, com isso, trabalhar o meu interior, mas também o meu exterior.
  9. Agradeço por ter tido a coragem necessária para me despedir, pois foi um marco importante na forma como passei a valorizar a pessoa que sou. Ser capaz de dizer basta a situações de abuso e de destruição do meu amor-próprio e a da minha auto-confiança transformou-me.
  10. Agradeço ter tido uma educação baseada nos afectos e nunca ter sentido, da parte dos meus pais, que os filhos eram o motivo de tensão ou de sobrecarga para os pais. Sempre fizeram tudo connosco e sei que tive uma infância feliz assente nos valores imateriais acima de tudo.
  11. Agradeço ter crescido em contacto com a natureza e em liberdade para ter muitas aventuras e experiências que contribuíram para a pessoa destemida e desenrascada que sou hoje.
  12. Agradeço todas as vezes que venci o cansaço e que convenci os meus para sairmos de casa e aproveitarmos tudo o que nos era possível: fosse para passear ao fim-de-semana, para viajar, passar fins-de-semana fora, fosse para descobrir um restaurante novo ou fazer um programa diferente com os miúdos. Isso permite-me que, ao dia de hoje, a viver em confinamento, eu não me sinta angustiada por não estar “a viver”! Saber que a cada momento fazemos o melhor que podemos para tirar partido dele, é o melhor remédio!
  13. Agradeço todos os riscos que aceitei e todas as mudanças que tive. Agradeço ter ido em Erasmus, viver expatriada, arriscar no incerto, etc. Tudo isso faz de mim uma pessoa rica em tantas coisas e cheia de um mundo que não assenta em coisas materiais. Nesta fase da minha vida, é tão claro que a minha felicidade não está numa casa, num carro ou nos bens materiais que tenho. Viver com a obsessão do dinheiro retira-nos discernimento para aproveitar a vida tal como ela é.
  14. Agradeço a capacidade em pedir ajuda e perceber que as nossas atitudes também têm interferência naquilo que recebemos dos outros e que a mudança cabemos a nós – e sim, dar esse passo custa tanto.
  15. Agradeço não olhar o mundo como um lugar dividido entre os maus e os bons, não parto com maldade e não ajo perante os outros com maldade.
  16. Agradeço o facto de, com 38 anos de idade, ter muitos sonhos que se tornaram realidade.
  17. Agradeço poder ter sido uma mãe presente desde o momento em que os meus filhos nasceram. Pois, por entre o mar de dificuldades e de desafios, cresci com eles e sei que sou uma pessoa muito melhor por passar muito tempo rodeada de duas crianças, dois seres humanos sem maldade, com uma capacidade infinita para perdoar e esquecer, por terem um beijo e um abraço sempre prontos e dizer aquilo que pensam com o coração e sem maldade.
  18. Agradeço ter acesso a tanta coisa nova e diferente e contacto com diferentes culturas, formas de estar e de pensar todos os dias e de poder observar e absorver tudo isso para mim.
  19. Agradeço o facto de conseguir conviver apenas comigo mesma e de gostar de me ter como companhia.
  20. Agradeço ter compaixão comigo, quando alguma coisa não corre bem, saber perdoar-me e aceitar que está tudo bem e que o mundo não precisa de pessoas perfeitas.

 

É grandioso perceber que esta lista, que inicialmente parecia ser um desafio encontrar tantas coisa, afinal, em vez de vinte, poderiam ser trinta ou quarente. Eu sou daquelas pessoas que confia no processo e na natureza. Sou das que acredita que a vida é boa e bonita. Tudo se resume à forma como cada um de nós decide tirar partido dela.

E vocês? Agora deixo do vosso lado! É a vossa vez de fazer este exercício de gratidão.

 

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