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As viagens dos Vs

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E se a quarentena fosse um vinho? Qual seria?

Um olhar sob a quarentena diferente: os sabores e odores do vinho!

29.04.20 | Vera Dias Pinheiro

E se a quarentena fosse um vinho_.png

 

 

Foi este o desafio que lancei à Lígia Santos, Directora Geral da Caminhos Cruzados, uma empresa familiar de produção de vinho da Região do Dão. Nós tivemos o prazer de conhecer pessoal esta quinta, muito moderna para o conceito a que talvez as empresas e quintas assentes neste ramo de negócio nos habituou.

 

Se tiverem curiosidade para saber mais sobre a Caminhos Cruzados e a nossa visita até la, convido-vos a ler este post: ,Felizes por nos termos cruzado com a Caminhos Cruzados.

 

Na altura, ficou a admiração por saber que a responsável pela Caminhos Cruzados era uma mulher jovem como eu e pela capacidade que teve em reinventar a imagem e a trazer um pouco de modernidade ao vinho e a todo o negócio envolvente.

Por esse motivo, sigo com afeição a sua página no Instagram, vou mantendo-me a par das novidades, o que também me permite manter o contacto.

 

Ora quando esta pandemia da COVD-19 surge e fomos todos obrigados a ficar em casa, uma parte dos negócios afectados foram, sem dúvida, o da produção de vinho e tem sido interessante acompanhar as alterações e adaptações que muitas empresas, marcas e negócios têm conseguido fazer mesmo quando tal parece impossível.

Contudo, esta ideia de descrever esta quarentena num vinho foi fruto do próprio contexto. Está provado que o consumo de álcool, e de vinho em particular, aumentou durante a quarentena. E a questão que se impõe é: terá alguém ainda resistido aquele copo de vinho simplesmente porque precisa de relaxar ou porque passamos a saborear as refeições e os momentos à mesa de uma forma mais especial e… sem a pressa a que estávamos habituados.

 

Nesse sentido, porque não convidar alguém especialista no assunto para nos descrever esta quarentena através do vinho, dos odores e sabores. Para além disso, a Lígia é uma mulher como nós. É mãe de um menino com um ano e meio, vive a quarentena tal como nós e tem o seu negócio próprio a sofrer com as consequências directas e indirectas da pandemia. Tem igualmente saudades da família e dos amigos e partilha das mesmas preocupações e receios de todos nós.

Posto isto, obrigada Lígia por ainda teres tido tempo e dedicação para alinhares nesta minha ideia.

 

  1. Como é que adaptaste a tua/vossa vida à quarentena?

LS: A nossa vida mudou drasticamente quer profissionalmente quer pessoalmente. Profissionalmente nós somos produtores de vinho, os nossos clientes são a restauração, são as garrafeiras que, como sabem, encerraram todas quando foi implementado o estado de emergência.

E, portanto, de repente, nós vimo-nos privados de contactar e de vender os nossos produtos aos nossos clientes e tivemos, em muito pouco tempo, que nos reinventar e que encontrar novas formas de chegar ao nosso consumidor final e de manter a empresa a trabalhar. E isso tem sido um grande desafio.

Pessoalmente, nós somos uma família um bocadinho nómada, andamos sempre às voltas. Porque nós moramos em Nelas, aqui no Dão, mas acabamos por andar sempre muito para trás e para a frente para visitar os meus sogros ou para visitar meus pais. E de repente, vimo-nos, durante cinco ou seis semanas que já vamos nisto, no mesmo sítio e isso para nós é uma novidade. No início foi um bocadinho estranho até mesmo para o meu filho (…).

vinhos portugueses do Dão

 

  1. Quais as maiores dificuldades que tens enfrentado durante a quarentena?

LS: É muito complicado para nós, enquanto empresa, esta barreira que nos é imposta de chegar aos nossos clientes e nós todos os dias lidamos com essa dificuldade. A par dessa dificuldade dos clientes, temos os fornecedores. Muitos deles ou estão com serviço mais limitado ou estão fechados. Portanto, lidamos com essas pedras na engrenagem.

Em termos familiares, nos somos uma família um bocadinho grande e estamos habituados a estar muito juntos. E, de repente, estamos reduzidos ao nosso núcleo, nós os três, e isso é um bocadinho difícil. Sentimos saudades das outras pessoas.

 

  1. O que tinhas planeado fazer durante a quarentena e ainda não fizeste?

LS: Muita coisa, porque inicialmente quando nós percebemos da dimensão disto, de repente, achamos que íamos ter uma bolsa de tempo para fazer uma data de coisas que nunca tínhamos feito: yoga, meditação, jardinagem, pão. E eu não consegui fazer nada disso ainda. Em parte, eu nunca fui boa na cozinha, portanto pão nunca seria uma opção. E, de resto, porque eu tenho um filho pequeno em casa, de um ano e meio, meditação e por aí a fora ainda não aconteceram.

 

  1. Entreter um filho em casa: truques, dicas ou… liberdade total?

LS: A nossa situação é um bocadinho diferente. Nós somos agricultores, nós vivemos numa quinta com alguns animais e a melhor maneira de deixá-lo entretido, dele estar bem e feliz, é soltá-lo.

Então, nós fazemos muito isso. Andamos no campo a ver os animais, a ver as flores, a mexer na terra. Então, não existe propriamente um plano (…).

 

 

 

  1. Qual o vinho que melhor acompanha a quarentena e porquê?

LS: (…) O vinho, neste momento, ou as refeições à mesa, acabam por representar um momento de laser que antigamente nos tínhamos com os amigos, nos restaurantes e agora temos dentro de casa, à nossa mesa. Então, acabamos por investir um bocadinho mais nesse momento e até sermos um bocadinho mais ousados naquilo que fazemos, que comemos e que bebemos.

O vinho que melhor acompanha a quarentena é um cliché, mas é verdade, é aquele que nos sabe melhor, que nós mais gostamos. No meu caso, eu tenho feito um esforço por provar muitos vinhos. Tenho provados muitos vinhos diferentes, de várias regiões e até de vários países. Portanto, não tenho assim um eleito.

Mas, nesta altura, aquele que tenho provado mais vezes, até porque estamos a lançá-lo, é este Caminho Cruzados Alfrocheiro, é uma casta aqui da região do Dão. E tem-me sabido lindamente até porque é um vinho de 2016, tem quatro anos. Tem sido muito interessante perceber como evoluiu até agora, como se está a comportar na garrafa. É um vinho complexo e isso também me agrada porque eu consigo ficar muito tempo a namorá-lo no nariz, depois na boca. Enfim, ocupa-me ali algum tempo e isso agrada-me (…).

vinhos portugueses do Dão

 

  1. Qual o vinho que melhor poderá contribuir para ajudar a mãe a relaxar durante a quarentena?

LS: Há uns dias atrás, a Vera perguntava-me qual era o meu momento para beber vinho, e é assim que deito o meu filho (risos).  E é um bocado verdade, eu deito-o e já estou a ouvir o meu marido a abrir a garrafa.

Há um vinho que eu adoro, que foi uma parceria que eu fiz há um tempo com a Isabel Saldanha que é o Filhas da Mãe e eu acho que é o vinho perfeito para uma mãe relaxar.  Nós chegamos ao fim do dia estourados e mesmo com vontade de desligar um bocadinho da loucura do dia-a-dia.

E um vinho tinto de 2017, é um vinho assim intenso e aconchegante. Gosto muito!

 

  1. Que aromas ajudam a combater os sentimentos aliados ao isolamento social?

LS: Eu acho que o isolamento social é para mim das coisas mais complicadas, como disse, eu gosto muito de estar em família e em grupo. Então acho que temos que fazer um esforço para concentrar-nos em outras coisas para não ficarmos a hiperventilar à volta disto.

E gosto, por isso, gosto de procurar vinhos complexos. E quando eu digo complexos, portanto vinhos que não sejam muito directos, que nós consigamos andar à volta daquilo e a perceber quais são os aromas que têm. Se são aromas mais frutados, se são aromas mais florais, que tipo de frutas é que são, porque é que terão aquele aromas e aquela cor. Acredito que não sejam para todos, mas a mim pessoalmente o que eu mais gosto num vinho é encontrar aromas silvestres.

Eu gosto muito, porque nós temos aqui muito mato, muita floresta à volta das nossas vinhas. Portanto são aromas que eu gosto muito. Conseguem-me levar para onde as uvas daquele vinho crescem e isso para mim acalma-me muito. Gosto de viajar com o vinho.

 

  1. Qual o vinho que melhor acompanhará o fim da quarentena?

LS: Bem, eu acho que não vai haver vinho que chegue (risos). Mas para celebrar o fim da quarentena eu escolheria um vinho doce para dias mais doces. Eu escolheria o nossos Caminhos Cruzados Descarada, é um vinho branco doce. Muito leve e bebido fresco é delicioso. Acompanha muito bem as entradas, as sobremesas ou sozinho… não precisa de acompanhamento. E é um vinho guloso, dá-me imenso prazer.

Portanto, acho que é este que eu vou abrir quando isto passar. E ainda para mais é um Descarada quando nós tivermos o descaramento de voltar ao início.

 

Podem assistir igualmente a esta entrevista/conversa completa em vídeo:

 

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