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As viagens dos Vs

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As viagens dos Vs

Caímos de pára-quedas numa pandemia... O que virá a seguir?

Como passamos da COVID-19, à pandemia e ao isolamento em casa?

19.03.20 | Vera Dias Pinheiro

pandemia corona vírus

 

O ano de 2019 foi difícil para muitas pessoas, eu incluída, e mesmo sabendo o que me 2020 me reservava – a partida anunciada da minha mãe – eu sentia que 2020 seria auspicioso. Por algum motivo, encaro-o (ainda) pleno de energias positivas vibrantes capazes de sarar feridas e de fazer as mudanças que tanto desejamos e aspiramos para a nossa vida. Aquilo que eu não sabia é que, para tal, teríamos que mergulhar nesta profunda crise - uma pandemia - que afecta todos os níveis da nossa vida desde a saúde, à financeira e até das nossas relações pessoas e familiares.

 

 Um vírus – que tem vindo a galopar desde o final do ano passado sem que nada nem ninguém fizesse prever a sua rapidez, amplitude, capacidade de propagação e incapacidade de resposta. Uma estripe da corona vírus, a covid-19, começou começado na China e agora arrasa completamente o mundo inteiro. E, literalmente de um dia para o outro, as pessoas foram encorajadas a ficar em casa, isoladas, pois evitar o contacto social é, para já, a única forma de travar a sua propagação.

 

Ora nós, seres humanos especialistas em fazer planos e programar a vida sempre uns meses, ou anos, mais para a frente, somos obrigados a parar no presente e a reagir. As escolas dos nossos filhos foram suspendidas, os atl’s e os avos não são opção dado que, perante a covid-19, as pessoas idosas são um grupo de risco. No trabalho, quando somos tão resistentes face aos avanços tecnológicos e ainda tão reticentes quanto ao trabalho remoto, esse passou a ser, em 90% dos casos, a única solução para que os negócios não colapsem. O acesso aos bens essenciais torna-se escasso e racionalizado e o medo de ficarmos sem comida – em pleno seculo XXI é real. Deixou de haver trânsito nas ruas, o comércio resume-se apenas aos serviços básicos e fundamentais à nossa existência, como correios, bancos, supermercados e farmácias. E, no dia -a -dia, somos forçados a dar relevância estritamente aquilo que é urgente – e mesmo assim, o urgente assumiu contornos ainda mais particulares.

 

Posto isto, o que temos nós agora? Famílias – espero, ainda assim, que seja a esmagadora maioria – como a minha e a sua, literalmente fechadas em casa. De repente, pais e filhos convivem como talvez nunca o fizeram na vida e marido e mulher confrontam-se a todos os instantes. Podia ser um mar de rosas se a situação lá fora não nos colocasse o nível de stress e de ansiedade em níveis elevados e a tensão do convívio a dar de si. Arrisco a dizer que, no final, só os fortes sobreviverão, mas, mais do que isso, numa altura em que se escreve a história que virá, daqui a alguns anos, num livro do ensino obrigatório, fala-se em guerra e em luta pela sobrevivência. E quando se luta pela sobrevivência, o que é que acontece? Pois é, contudo, a história que hoje estamos a viver vem ensinar-nos que a única forma de ultrapassarmos isto é dar as mãos uns aos outros, aqui não é (e nem pode ser) cada um por si.

 

Numa altura em que vivemos isolados e ainda assim, famílias que, dentro do mesmo tempo, se isolam devido ao perigo de contágio, as relações têm que ser fortes e emanar os seus valores mais puros e verdadeiros. Existem menos abraços, menos beijos, menos contacto, menos convívio. Nada é como antes e nem sequer alguma vez se tinha colocado este plano B (de existência) como hipótese na nossa primeira e principal existência. Verdade?

 

Da minha parte, eu só esperava poder, neste momento, estar a chorar a morte da minha mãe, a fazer o meu luto e sempre que cabeça ficasse demasiado cheia e o peito muito apertado, pegar em mim e sair, viajar e estar a contar os dias para as nossas férias de verão que, modéstia à parte, iam ser em bom – lei “parva” da compensação! Porém, a realidade é outra. Sinto o meu corpo, que entrou numa espiral de cansaço físico e psicológico, dormente. Mudar de país, o cancro, a adaptação às novas rotinas, a morte e agora estou isolada, dentro da minha casa com a minha família, a lidar com uma pandemia e que coloca a nossa vida sem qualquer horizonte.

 

Ainda assim, não estou preocupada com o facto de passar muito tempo em casa. Eu estou habituada, sinto-me bem e consigo ter organização mental e alguma abstração para “seguir com a vida” nestas condições. A parte financeira, enfim, na minha vida a instabilidade é um dado adquirido, todas estas sensações que são agora novidade e assustadoras para alguns de vós, eu debati-me quando me despedi e arrisquei tudo no incerto. O perder horizontes e viver o presente, bom, o facto de não ter certezas no amanhã, obrigou-me a ter uma garra no agora e que renasce todos os dias. E, se tal não bastasse, presenciei a partida da figura da materna, com momentos muito importantes e marcantes para mim – que ligo (e sinto) o mundo espiritual – transformaram ainda mais a pessoa que eu sou hoje. Perdi o medo de ficar doente ou de sofrer, por exemplo.

 

Contudo, não estou de boa nesta situação. Sou mãe e o meu instinto de protecção está no alerta máximo. E, para além disso, preocupa-me a forma como as pessoas, no geral, estão e irão lidar com TUDO isto, que vai muito para além de uma pandemia ou da covid-19. Queixavamo-nos muito e todos os dias de vivermos assoberbados de coisas e com falta de tempo e, neste momento, temos literalmente tudo para gerir ao mesmo tempo, sem separação e sem fuga. Os filhos não vão para a escola a seguir ao fim-de-semana, o trabalho vem para casa e, a seguir a uma discussão, a pessoa continua à nossa frente.

Mas a noção de tempo mudou! O tempo revelou-se para nós, deu-nos uma pancadinha nas costas para lembrar que era disto que nos queixávamos. E agora, o que vamos fazer com isso?

 

O meu conselho, modesto e humilde, é que vão com calma! A situação de base é já por si delicada e exigente, sem exemplos. Na minha opinião, é incorrer em mais pressão se, dentro da vossa casa, procurem ainda mais coisas para fazer ou se entreter. É tempo de parar e encarar as coisas de frente, os outros e a nós mesmos - essa parte é dura para caraças.

 A palavra aceitação vem agora ser colocada à prova, a nossa solidariedade, a empatia pelo próximo e o respeito. No fundo, é tudo ao mesmo tempo. Misturado e confuso. E vai ficar tudo bem, sim, desde que aceitemos esta fase por muito mau que tudo nos pareça agora.  

 

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