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A quarentena, o isolamento e a ansiedade social!

O desabafo após não sei quantos dias de quarentena.

23.03.20 | Vera Dias Pinheiro

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Há muita coisa que vos quero falar e partilhar para além da corona vírus e da quarentena que vivemos. Mas subitamente sinto-me complemente esmagada e paralisada face às partilhas que se replicam por 10, 20, 100, 10 000 pessoas e por todos os canais de comunicação que temos ao nosso alcance e que, hoje em dia, são tantos, nomeadamente o telemóvel, as várias redes sociais, os vários grupos de whatsapp. Enfim… percebemos nestes momentos como a lista é extensa.

 

Pois se, no início, era fundamental para percebemos a seriedade do momento que o mundo inteiro atravessa, rapidamente tornou-se uma espiral de informações, umas a seguir às outras, de números, de recomendações, de pedidos de partilhas, de alternativas em versão digital para nos ocupar o tempo até ao ínfimo minuto, de eventos, também eles digitais, para fazer homenagens… tudo isto, à medida que os dias foram passando, tornou-se extenuante psicologicamente e emocionalmente.

E atenção, eu não sou contra nada disto. Porém, neste momento em que todos vivemos entre quatro paredes, eu sinto-me a afundar, sem ser capaz de reagir perante mim, a minha família e o mundo.

 

De tal maneira que, por exemplo, pensar em sair de casa, mesmo que por breves instantes, seja sozinha ou em família, causa-me muita ansiedade. E sem que que consiga controlar, na minha cabeça começo a recriar a forma de propagação do vírus, o tempo que permanece nas diferentes superfícies, nos cuidados que devemos ter, onde não podemos tocar, o que temos que desinfectar, os mil cuidados entre o sair o voltar a entrar em casa… É de tal forma que dou por mim imobilizada a olhar para o meu marido, quando chega do supermercado, pois eu bloqueio, não sei o que fazer com o saco das compras - medo de lhe pegar, medo que toque em algum lado, medo que os miúdos lhe toquem.  

 

Por outro lado, estávamos a caminhar progressivamente para um desligar das redes sociais e passar mais tempo offline. E, de repente, as notificações dispararam por todo o lado, estamos mais do que nunca ávidos de consumir informação e de nos conectarmos com o mundo. Se a isso juntarmos a pressão de coisas para fazermos no nosso dia-a-dia, porque estamos em casa e parece que contrariamente ao que se diz, estamos de férias, os grupos de pais, os alarmes da escola, o apelo para tornarmos estes dias incríveis com mil e uma coisa diferentes para entreter os miúdos e, ainda assim, conseguir ter roupa lavada, casa desinfectada - por causa do vírus, claro - e produzir, pois a economia precisa mais do que nunca de ser alimentada. Tudo isto em apenas 24 horas é impossível.

 

Preciso de respirar um pouco de normalidade sem me sentir culpada ou que as pessoas pensem que estou despreocupada com a situação. Mas a minha vida tal como era manteve-se, o estar em casa é algo normal para mim, mas agora parece que não é – e não é para muitos de vocês. Os nossos dias agora são muito semelhantes: os filhos, as tarefas domésticas, o trabalho e as horas a mais que os nossos dias têm por causa de tudo isso – ou melhor que não têm e, por isso, muitas vezes são 23h e ainda estamos a tratar de algo importante. Ouço as pessoas falarem da dificuldade em gerir o tempo, que dão por si a trabalhar até muito tarde. E é legítimo, pois é mesmo assim.

 

Desde 2013 que eu ando a ajustar-me a esse ritmo e mesmo assim ainda não tenho truques mágicos ou segredos para partilhar - a não ser a consciência de que é preciso ter rotinas, horários – nada rígido – mas saber em que parte do dia fazem o quê. Isso ajuda a manter a calma e a sermos mais produtivos. Os dias fluem, porém sem nunca se fazer tudo aquilo que queríamos.

 

Neste momento, todos nós já percebemos a seriedade da situação e sabemos que, nesta fase, tudo se resume ao isolamento de todos. E essa é, ao mesmo tempo, a melhor forma de homenagear e respeitar o trabalho dos médicos, enfermeiros, auxiliares, mas não só. Há inúmeras pessoas que não podem ficar em quarentena, por exemplo os funcionários do supermercado, dos bancos, dos correios, das farmácias, camionistas, etc. Essas pessoas arriscam todos os dias a sua vida e carregam o peso da responsabilidade de evitar que a curva de infectados pelo Covid-19 dispare ainda mais. O nosso papel agora é respeitar as ordens que nos dão sem excepção.

 

Mas se me permitem, a minha cabeça precisa de alguma normalidade. Eu preciso sentir-me normal se não ler as notícias a toda a hora. Sentir-me normal se partilhar coisas banais. Sentir-me normal se não estiver presente em todas as partilhas ou aceitar todos os desafios que recebo a toda a hora. Sentir-me normal para conseguir fazer o que me compete.

 

Vivemos tempos difíceis e fraturantes de quem éramos e do que seremos quando tudo isto passar. E eu acho que precisamos todos de tempo e espaço para encaixar tudo isso – repito, cumprindo o nosso papel, o de estar em casa o máximo de tempo possível. Algo que eu encaixei como uma ordem severa - porque na minha cabeça, quanto mais tempo eu estiver em casa, mais rápido volto a sair. Percebem a minha lógica? Tipo castigo da escola!

 

Mas se o mundo nos pede para mudar, não vamos inverter o caminho em 180 graus. Por isso, desculpem-me e compreendam se, no meio do caos, eu precisar de me afastar, se precisar de silêncio ou de estar sozinha, afinal, no meio do caos, há um luto ainda a precisar de ser feito.

 

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