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As viagens dos Vs

Mulheres nutridas, famílias felizes

As viagens dos Vs

9 Motivos que levam os casais a discutir (após os filhos)

02.03.17 | Vera Dias Pinheiro
Para mim, o mais difícil quando se tem filhos é, sem dúvida, conseguir manter o relacionamento saudável e que sobreviva à reviravolta dos primeiros meses (de vida do bebé nas nossas vidas).

Antes de ter filhos, admito que não entendia muito bem o porquê de tantos relacionamentos chegarem ao fim. Porque é que algo tão grandioso poderia afastar, em vez de juntar? Depois, engravidei - uma primeira vez... e uma segunda vez - e comecei logo a entender que as hormonas são um conceito difícil de explicar aos homens, de fazê-los entender que é um fenómeno que realmente existe e que não passa com a gravidez. Durante os nove meses, ficamos mais sensíveis, o que até então estava certo, passa a estar errado, deixamos de gostar de azul, para começar a adorar o amarelo, enjoamos o perfume dele, esquecemos - com frequência - as coisas que eles nos dizem e os recados que nos pedem... Enfim, mas só para que conste, eu também não gosto de ter hormonas, não gosto de me sentir instável, de chorar e rir ao mesmo tempo. Para nós, não é nada fácil lidarmos com tantas mudanças, incluindo um novo "eu" (com emoções que não controlamos).

Depois, o bebé nasce e nós a achar que, com tanta literatura e com tantos workshops, iria ser fácil, fácil. Mas, depois, percebemos que não é assim e, dependendo da personalidade de cada um, podem começar aqui a surgir as primeiras dificuldade no relacionamento. Ter um filho é um mudança brutal nas nossas vidas, que vem colocar tudo à prova, até mesmo, se o nosso companheiro é mesmo a pessoa ideal para nos acompanhar nessa grande viagem da maternidade.



Algumas das (minhas) teorias sobre tudo isto:

1. A reacção dos homens à transformação da sua companheira numa versão que desconheciam: a de mãe! 
O instinto maternal dos primeiros meses tem muito de animal e de primitivo e podem ocorrer em vários níveis. Nos casos mais extremos, pode até assustar um bocadinho aos homens, podendo estes sentirem-se um pouco perdidos, sem saber muito bem qual o seu papel a partir de agora e de que forma vão conseguir estabelecer a relação com um filho que continua a passar a maior parte do seu tempo com a mãe;

2. A alteração das rotinas:
As rotinas mudam radicalmente e talvez esta, seja uma mudança que mais afecta os homens. Aceitar que as prioridades são outras, que os horários são outros e que os primeiros meses implicam várias cedências. Deixamos de chegar a horas, passamos a estar dependentes das horas das sestas, interrompemos muitas vezes aquilo que estamos a fazer para mudar fraldas, sentimos níveis de cansaço complemente diferentes do que estávamos habituados e, por vezes, perdemos o discernimento para conseguir não reagir a quente e na hora. 

3. Falta de espírito de sacrifício para as alterações que são precisas fazer e impaciência para conseguir aguentar a fase mais complicada: os primeiros meses. 
Os desafios vão se sucedendo e vão sendo cada vez maiores, mas é diferente. Um recém-nascido exige muito de nós.

4. Falta de trabalho de equipa e a emergência do eu!
"Eu estou cansado" // "Eu preciso de comer" // "Eu ainda não tomei banho" // "Eu não dormi"
Quando, na verdade, do outro lado está alguém exactamente na mesma situação do que nós. 

5. Delegar no outro.
Os homens tendem a delegar sempre na mulher a responsabilidade de decidir tudo, muitas vezes, com receio de não conseguir fazer igual. E a mulheres não dão liberdade aos homens para fazer, porque eles não fazem da mesma forma que elas.

6. Tempo para cada um
O bebé nasce e as atenções centram-de todas nele, mas é na figura da mãe que está uma maior responsabilidade e também a maior dificuldade em retomar a vida de antes. E aqui é preciso haver bastante cuidado para não melindrar, pois ambos precisam de momentos para si mesmos, pelos mesmos motivos. E, muitas vezes, isso não acontece. Os homens não têm limitações e, por isso, continuam a sua vida normal e isso pode ter um efeito negativo na mulher que se encontra fragilizada emocionalmente e hormonalmente instável.

7. Momentos a dois. 
Onde andam?! 
Talvez aqui, diria que os casais precisam, acima de tudo, de se reencontrar. É preciso uma maior entrega emocional na relação e na forma como se interage com o outro. Por exemplo, é preciso conseguir um mau humor após uma noite mal dormida - perguntem como se sente e não reclamem da má disposição. Também é normal que, quando poderia haver tempo para namorar, se acabe adormecendo. É preciso paciência e tempo. Namorar, nesta fase, mais do que a parte física, e saberem cuidar-se emocionalmente um do outro. 

A maternidade é uma prova de fogo e uma prova para a vida toda, quer queiram, quer não. 
Os filhos vão tendo várias etapas e cada uma com os seus desafios.

8. A perda de liberdade.
Saídas condicionadas, dificuldade em fazer os mesmos programas de antes, sentir-se velho e enclausurado nos filhos e nas rotinas. Resumidamente: falta de tempo para viver fora da bolha. Também podem ser motivos para atritos. 

9. Falta de diálogo.
Uma coisa essencial e que se pode ir perdendo com o acumular de tarefas, a falta de tempo, o cansaço, etc... etc... etc...

Na perspectiva do homem, talvez a imagem seja a de que a mulher o tenha colocado para segundo plano, porque todas as suas atenções e todos os seus sentidos estão concentrados no bebé. E talvez seja um pouco assim, mas repito: é preciso ter paciência, especialmente para deixarem que a mulher faça o luto da sua barriga e o "desmame" da sua cria que era só sua e que, de repente, é de tanta gente também. Psicologicamente, são momentos que podem gerar grandes conflitos interiores e que podem gerar as depressões pós-parto, se a mulher não tiver abertura e compreensão para falar sobre esses sentimentos.

É uma fase que vai dar muito trabalho? Sim, sem dúvida. Vai ser preciso engolir alguns sapos, às vezes, até um pouco do nosso orgulho e fechar os olhos a coisas que não gostamos. É importante ter a capacidade de perceber que há coisas que são fruto do momento - eu gosto de lhes chamar reacções.

Mas, se posso dar um conselho: se gostam, fiquem; se amam, lutem; se se importam, demonstrem-no. No nosso dia-a-dia, deixou de haver tempo para ler outros pensamentos, para além de tentar adivinhar o porquê do bebé estar a chorar novamente. 
Passem às acções, mesmo sem saberem muito bem o que é suposto fazer, demonstrem que estão juntos nisso. Amparem as quedas, porque se deixarem cair, após inúmeras quedas, fica difícil levantar. Não se limitem a esperar por um sinal para tomarem uma atitude, façam-no de coração e sem esperar nada em trocar.

 A passagem desta fronteira dos filhos é dura, muito dura e há um caminho mais fácil, sem dúvida, que é voltar para trás, para um mundo onde tudo era perfeito e onde controlávamos quase tudo. Mas os audazes não querem um porto seguro, os audazes procuram algo melhor, procuram superar os obstáculos porque sabem que algo de muito bom virá a seguir e, neste caso, é a família, no sentido que todos imaginamos, um mesmo tecto harmonioso para todos. 
Obviamente, este seria o desfecho ideal....


Boa noite.


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